quarta-feira, 23 de maio de 2018

O Retrato do Velho 2


Homenagem ao Presidente Getúlio Vargas, em doze capítulos.

A Entrevista Histórica.
Samuel Wainer – (1910 – 1980)



T.C. – Como é que você conheceu Getúlio?
S.W. – Eu conheci Getúlio, pela primeira vez, em 1947. Ele estava preparando um grande discurso...
T.C. – Isso onde?
S.W. – No Rio de Janeiro, ele era senador, já provavelmente com a idéia de se afastar, se expatriar – todo mundo conhece o episódio – e acho que esse discurso é que deu o ponto de partida pra ele voltar. Ele ia pronunciar um grande discurso sobre a política petrolífera brasileira, defendendo a criação de um monopólio do Estado.
Na ocasião – 1947 – estava no auge o debate sobre o petróleo, no Clube Militar, e eu tinha feito uma série de reportagens nos Diários Associados, como free lancer, em que dividia os políticos brasileiros em três pela primeira vez: os realistas, os nacionalistas e os entreguistas, que eu citava, baseado nas entrevistas que havia feito. O Getúlio leu a reportagem e gostou. E me pediu cópias porque ele queria como subsídio para o seu discurso. Foi pedir ao seu amigo Queirós Lima, da velha guarda getulista, um dos primeiros oficiais de gabinete do Getúlio – que depois deu um cartório pra ele – um homem de alto nível de inteligência, do mesmo grupo do Raul Porto, Sérgio Porto. Foi o Queirós que me pediu os recortes. Eu levei a ele aquela série de reportagens que se chamava “Abre-se no Brasil um Novo Campo de Petróleo”, e que eram baseadas em estudos sobre a era petrolífera. Aí, o Getúlio queria que eu as levasse ao Senado. Levei. Eu nunca tinha visto ele de perto. Nunca tinha visto Getúlio Vargas de perto na minha vida, embora eu tivesse sido preso três vezes no regime dele – fui (ilegível). Mandei-me anunciar (ilegível) ele saiu bem vestido (ilegível) e ele me pediu que fosse ao Rio Grande do Sul fazer uma reportagem para provar que não havia possibilidade para a plantação do trigo no Brasil. O Chateaubriand era contra isso, alegava que isso iria atingir interesses da Argentina e que os argentinos deixariam de comprar o nosso mate.
T.C. – Nada de “plantando dá”.
S.W. – Nada de “plantando dá”. Eu fui pra lá. Lá colocaram um avião à minha disposição, um repórter e um fotógrafo. E andamos pelo Rio Grande. Fui a Bagé ver a Fazenda Experimental de Trigo, que é a mais importante do País, de um alemão apaixonado pelo trigo daquele Estado. E às duas da tarde estava numa cervejaria em Bagé, com uma bomba na mão: tudo o que eu tinha a provar era o contrário, que o negócio do trigo era pura campanha nacionalista. Não sabia como sair dessa. Nesse meio tempo, esperando a volta pra Porto Alegre, o piloto começou a contar a história do “Queremismo”, que já estava crescendo, que eu não conhecia, porque eu estava totalmente desinteressado de política. O Movimento Queremista do Rio Grande começou em 47. Ele me disse que ia frequentemente à Fazenda de Getúlio, levava recado e várias mensagens. E eu então, de repente, me lembrei: por que não entrevistar Getúlio Vargas? Era o ditador deposto que estava ali ao lado.
Eu disse: ô Nelson, vamos até a Fazenda do Getúlio. Quanto tempo leva? Ele respondeu: duas horas. Mas ele não vai nos receber, especialmente, sendo você dos Diários Associados. O Getúlio já tinha mandado jogar cândida em cima do David Nasser. Os Diários Associados tinham feito uma terrível campanha contra o Getúlio. Eu disse: vamos lá, se ele não der a entrevista é uma reportagem. Se ele der é outra. E o Nelson topou. No caminho eu propus-lhe o seguinte: ao chegar à fazenda, se o Getúlio não nos recebesse ele deveria alegar um pane no motor do avião. Se eu conseguisse passaria só a noite lá e tudo bem. (ilegível) o capataz nos recebeu (ilegível) mandei entregar o meu cartão (ilegível) veio a resposta: ele iria (ilegível). Cinco minutos depois saiu e foi logo perguntando:  “Samuel Wainer, ah, você quer conversar sobre (ilegível).
Dizia tudo ao Getúlio. Aí, o Getúlio voltou, eu perguntei se podia tirar umas fotos, ele disse que podia, desde que todo mundo se retirasse. Tiramos umas fotos e conversamos durante 45 minutos. Eu comecei a sentir que ele estava usando a minha entrevista pra fazer uma manobra política. Isso descobri depois. Ele começou a lançar a eleição do brigadeiro, pra garantir a eleição de um militar, pro Adhemar ficar esperando a vez. Mas o mais importante foi o que ele declarou quando eu perguntei: “O senhor vai voltar? ” Porque tinha aquele famoso slogan: “Ele voltará”. Ele disse: “Sim, eu voltarei, não como líder político, mas como líder de massas. ”
Ao terminar a visita ele se aproximou e disse: “Olha, você passa para o outro lado, antes que o sol se ponha. Tem lá um rapaz chamado Jango que é meu filho. Converse com ele e ele vai te receber muito bem. ”
Foi a primeira vez que se falou em Jango. Nunca tinha ouvido falar nesse nome. Passamos pra São Borja, fui correndo lá pro hotel, tomei nota rápido e fui pro centro da praça, onde estava Jango Goulart e sua corte.

(cont.)