quinta-feira, 22 de junho de 2017

Especial - Heitor Saldanha - Apresentação

                                                                                                       

1. Ilustre desconhecido...

Conheci o poeta Heitor Saldanha nos idos e sobrevividos de 1980.
A descoberta de sua poesia foi uma forte revelação. O elevado nível de criação poética e o apurado trato da linguagem colocam-no entre os principais autores do gênero no Rio Grande do Sul e no Brasil. Por essas coisas que a gente não consegue entender, permanece desconhecido.
Nascido na Serra do Caxambu, município de Cruz Alta, em 28 de abril de 1910, ao longo da vida Heitor fez várias coisas. Tocou viola, cantou versos de improviso, foi funcionário da Viação Férrea e servidor público, entre outras atividades. Acima de tudo, foi um homem comprometido com o humanismo e a poesia, sempre atento ao que se passava com os semelhantes.
A indiferença jamais fez parte do seu modo de ser.
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2.  Vida intensa...

Em 1958 foi morar no Rio de Janeiro com a contista gaúcha Laura Ferreira, com quem havia casado um ano antes. “Aí a vida foi intensa”, comentava. Conheceu Carlos Drummond de Andrade, Aníbal Machado, Clarice Lispector, Ferreira Gullar, Helena Jobim, José Louzeiro, o paulista João Antônio que se mudara para lá, os irmãos Campos e Décio Pignatari. Houve de tudo um pouco: noites boêmias, debates, agitação, poesia. E o nascimento de seu filho, André...
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3. Hora Evarista – Especulações...

Sob o título: “A Hora Evarista” a Editora Movimento, de Carlos Appel, lançou, em 1974, poemas de Heitor Saldanha, inclusive, os de: “A Nuvem e a Espera”, “As Galerias Escuras” e “A Outra Viagem”. Ainda que esse livro trouxesse refinados comentários de Manoel Sarmento Barata, Raymundo Faoro e José Louzeiro, nada é mencionado a respeito do título, onde está esse adjetivo singular, “evarista”, para qualificar aquela “hora” do poeta. Descartamos eventual referência que viesse da onomástica, pela antroponímia de “Evaristo”, nome próprio de origem latina.
Invenção, neologismo, aliteração, transliteração para abonar ou desabonar palavras, são atitudes constantes na criação poética e na literatura em geral. Nosso poeta poderia simplesmente ter achado bonito, sozinho em sua mesa, ou conversando com amigos, “A Hora Evarista”, que não é “A Hora H”, nem “A Última Hora”, mas é uma hora decisiva.
Também pode ser que ele tivesse lido o epíteto em algum tempo e lugar e por gosto e livre escolha adotado o enigma para título da compilação.
Nos poemas em que a expressão aparece um significado preciso não ganha abonação pela moldagem metafórica que a permeia.
As pistas rabiscadas pelo Poeta Heitor Saldanha, autor de "A Hora Evarista", são:

1ª) - página nº 9 - (título): a hora evarista (em letras minúsculas); com a epígrafe:

uns vivem crono-metrados
eu vivo fora de hora
paciência
por agora
quero um oco de céu
pra cabidar meu chapéu

2ª) -  página nº 10 - (título): A HORA EVARISTA (caixa alta), seguido de:

chega uma altura na vida
em que o universo suspira sua síntese
então passamos de cabeça baixa
era tão longe e não se sabia
que tudo é perto pra viver poesia

3ª) – página nº 11 – poema: "Dia dos Mortos":

tira isso daí
recua essas mesas pardas
pra não me perturbar em alucínio
apague os refletores que essa água mareia
estão desembarcando os passageiros
nesse campo de pouso disparado
é a hora evarista no tambor dos revólveres
por isso não há estampido
cuidado
sai daí
...

Pensando nisso, é possível que uma "hora evarista" seja, ao contrário da hora cronometrada, uma "hora de se viver fora de hora", "numa certa altura da vida", "com a síntese do universo ali, sendo suspirada"...
Ela poderia vir, por aproximação, do Latim, onde "sempre" admite, entre outras abonações: "semper", "umquam", "ever" e "in perpetuum".
Ora, considerando "ever" - também, como o mantém a Língua Inglesa - há de haver uma forma declinativa de "ever" para "evaris", acabando por ancorar o adjetivo "evarista", para qualificar uma determinada e singularíssima hora que seria para sempre, com duração diferente da "hora cronometrada", muito diferente:

Hora evarista = aquela que a gente quer que nunca acabe, que dure para sempre...

Ou, não?

Poeta Garoeiro – Natal, RN, 21 de junho de 2017.


Programação: de 22 de junho a 29 de junho de 2017, o Reblog do Poeta Garoeiro homenageia o Poeta Heitor Saldanha, postando, dia a dia, um poema escolhido, dentre o manancial apuradíssimo que ele criou...

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Soneto apaixonado...

Garoeiro – Natal, RN, 21 de junho de 2017.

















Qual gosto virtuoso amor supera,
Capaz de mais satisfação, prazer,
Minh'alma terão sempre a responder
Que amando é nada a realidade mera.

Eu ser feliz sem amor, quem me dera,
E gasto, quem me dera amor descrer,
Se o bem dessa loucura de viver
Amar unicamente considera?!

Mas a vida amorosa é uma ilusão,
Em vencidas vitórias vincada,
Mostrando sempre à parte derrotada,

Que o eternamente vencedor em vão,
Fatalmente será crucificado
Em sua cruz de amar apaixonado!

terça-feira, 20 de junho de 2017

Equador

Garoeiro – Natal, RN, 20 de junho de 2017.











Invenção de equador,
Que a separabilidade
Quanto a tudo há de dispor,
É amor na modernidade.

Ele é colaborador
Em limitada metade;
Ela controla o rigor
Da mútua felicidade.

Tendo esse grande impostor
Só receptividade,
Fosse o verdadeiro amor
Somente cumplicidade...

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Lutando contra o noticiário...

Garoeiro – Natal, RN, 19 de junho de 2017.



















Tanto a tirania, embalde,
Caça a comunicação,
Que no Brasil é uma fraude,
Quando só forja versão.

Quando a pena é instigada,
Faz com que – tal fosse imprensa –
A versão interessada
E editada, convença.

Quando jornalismo vira
Esse exercício de amém,
Mal convertendo a mentira
Nas verdades que convêm.

Quando a mídia brasileira
Cavouca na zona parda,
Contra o povo, essa trincheira,
Com seus fiéis cães de guarda...