segunda-feira, 20 de novembro de 2017

No avesso do desenho...

Garoeiro – Natal, RN, 20 de novembro de 2017.














Ante históricos ovos a frigir
Resume-se toda a tragédia humana,
No mal que os verbos ter e possuir
Vêm primar na vida cotidiana.

Falsa feira do mundo a me iludir
Com sua lei de consumir insana,
Quer que eu deseje ter a consumir,
Sem cessar as ofertas da semana.

Que lhe seja tão só toda a existência,
Comprada desde as possessões precoces,
Sucesso na gestão de minhas posses.

Mas no meu coração a humana essência
Diz a verdade no avesso do desenho,
Feliz só sendo livre do que tenho...

domingo, 19 de novembro de 2017

Diabinha

Garoeiro – Natal, RN, 19 de novembro de 2017.

















A posse é uma diabinha
De anjo fantasiada;
Gosta de alma fraquinha,
Presa e bem acorrentada.

Todo nosso, meu, ou minha,
Quer a alma escravizada;
Já doei tudo o que tinha,
E não quero ter mais nada...

sábado, 18 de novembro de 2017

Poderes do verso...

Garoeiro – Natal, RN, 18 de novembro de 2017.












Por despoetizados longos dias
Não pode ter amparo minha dor
No alívio que o fazer versejador
Vem me vestir a dor com fantasias.

Se valem as felizes sintonias
Dos versos com anseios do leitor,
Quer viver o poeta igual valor
No óleo distensor das poesias.

De modo que é uma espécie de agonia
Ter a doer dor que não doeria,
Tendo na mágoa o coração imerso.

Pois a dor no poema é sentida,
Admitida a tradução em verso,
Uma versão de dor sem ser doída...

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Manifesto desmobilizado...

Garoeiro – Natal, RN, 17 de novembro de 2017.












Estar provido, garantido, agraciado,
E uma sobrevivência tranquila obtendo,
Eis, o anseio de todo o mundo aí, sofrendo,
Do bem prometido, já desesperançado.

Aceitamos, lá atrás, o prazo demorado,
Sem querer nada e o nosso melhor cedendo,
Para vir padecer afinal, padecendo
Disso aqui, contra o que temos tanto lutado.

Resta a clareza, agora, que o caso concreto,
Na plena derrocada desse teu projeto,
Só pode ser porque o alvo é o que tu percalças.

Alheios, então, deixai-nos ao mais que peças,
Até que possas nos pregar novas promessas,
Promessas outras, que não essas, menos falsas...

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Fogueiras

Garoeiro – Natal, 15 de novembro de 2017.

















Por esse fim de amor, da amizade,
Matam todo o prazer carrascos vis
Nessas fogueiras da moralidade,
E encantada a plateia pede bis.

Nem o abuso sequer de crueldade
Com seu mal evidente de raiz,
Consegue fazer ver a insanidade,
No transe da cegueira aprendiz.

Tantos tendo o horror por felicidade
Quando o efeito manada é o que condiz,
Convir acabo já na minha idade:
- Preciso tratar de me achar feliz...

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Desenredo...

Garoeiro – Natal, RN, 14 de novembro de 2017.












Empinasse papagaio
Nessa brisa, subindo,
Ou mesmo outro gosto gaio
Num domingo assim tão lindo,
Na praia onde me distraio
Gente pelada, sorrindo,
Mas em vez de bom ensaio,
Liga o amigo resumindo
No seu discurso cambaio,
Um céu de desgraça vindo
Descarregar-me o seu raio:
A dona do enredo infindo,
No desenredo do arraio...

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Muda alegria

Garoeiro – Natal, RN, 13 de novembro de 2017.

















O livro mercadoria,
Por obra de mercadores,
Vale a fama que associa
Uns milhares de leitores.

E eu que escrevo todo dia
Num deserto de editores,
Leem minha poesia
Não mais de dez sonhadores.

Nada sofro, todavia,
Por faltar consumidores,
Gozando a muda alegria
Do gozo dos escritores... 

domingo, 12 de novembro de 2017

Eflúvios

Garoeiro – Natal, RN, 12 de novembro de 2017.












Vêm às vezes pressentidas
Em dor que nada desfaz,
Memórias escondidas
Dos meus tempos de rapaz.

Imaginações dormidas
De fantasia veraz,
Trás uns morros parecidas,
Ou com pés de manacás.

Voltam embora perdidas
No passado que em mim jaz,
Minhas vidas não vividas
Que ficaram para trás...

sábado, 11 de novembro de 2017

Arenga

Garoeiro – Natal, RN, 11 de novembro de 2017.













Por orgulho me desprezas,
Onda de estar nem aí,
E nas caras que revezas,
Mangas de mim que morri.

De julgar que assim me enfezas,
Dás toda hora um piti;
Pois saibas, já não me lesas,
Vivo bem aqui sem ti...

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Depois de um mês...

Garoeiro – Natal, RN, 10 de novembro de 2017.












Eu não sou de reclamar,
Só estou dizendo o que sei:
Depois de experimentar,
Não aceito que falhei
Apenas por declarar
Que outras vezes já provei
Com gosto até mais vulgar,
Cada gozo que troquei,
Cada jeito de gozar,
Durante esse mês sem lei,
Que sofro ao te namorar...

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Certa liderança...

Garoeiro – Natal, RN, 09 de novembro de 2017.











Pragmatismo é jeito de trair:
Complexo argumento eu desmonto,
Já reduzindo a discussão ao ponto
Da decisão que nos fez decidir.

Pragmaticamente discutir
Com quais forças concretamente conto,
Conta tempo perdido sem desconto,
Que nos atrasa o momento de agir.

O compromisso histórico não cansa
De enfrentar a pragmática brenha,
Contra a fama de certa liderança

Que acha bom o discurso que desdenha
Da ciência, por não deixar barato,
E um zero à esquerda o cientista chato...

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Manuela chegando...

Garoeiro – Natal, RN, 08 de novembro de 2017.












Ousar dentro da vida um sindicato
Passa por esse azar que confabula
Os sonhos miseráveis que tabula
Na conta de lucrar do patronato.

Não há no imprescindível aparato
Mais do que o mínimo legal insula,
Lei que está no DNA de Lula,
Fortuna de sindicalista nato.

Por isso toda vez que a base avança,
Morrer por redimir-se dos reveses,
Volta Lula à mesma vil aliança.

No rumo de seguir às suas teses,
A Esquerda vai sumindo rarefeita,
Sob acordos fechados à direita...

terça-feira, 7 de novembro de 2017

À luta que faz cem anos

Garoeiro – Natal, RN, 7 de novembro de 2017.
[ No centenário da Revolução Bolchevique... ]














Heroico sonho de revolução
Abre cem anos neste dia sete,
Vencido de história que o encete,
Vitorioso no meu coração.

Triste, me dói a comemoração,
No avanço conquistado que derrete,
No atraso com que a História se repete,
E o reunido em desagregação.

Setenta anos de teu relicário
Chegam traídos neste centenário,
Mortos nos lucros que a traição dá.

No entanto, a luz que desfará os enganos,
Fará justiça à luz daqueles anos,
E a luta de cem anos vencerá!

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Urutau

Garoeiro – Natal, RN, 6 de novembro de 2017.

















Quieto no galho casquento,
Procura-se o urutau
E um mimetismo cinzento
Esconde seu visual
Sob mesmo olhar atento.

Está lá, porém, isento
De aparência usual,
Pois seu pouso toma assento
Na aparência do pau
Fora dele fragmento.

Poemas de pensamento,
Na poesia universal,
Guardam aparecimento
Em camuflagem igual
De seu pássaro detento.

Com mesmo alguns graus de aumento
À poética focal,
Bem demorado é o momento
De enxergar o essencial
No aparente movimento...

domingo, 5 de novembro de 2017

Mão vazia

Garoeiro – Natal, RN, 05 de novembro de 2017.










Olho a minha mão vazia,
Velha, seca, enrugada,
E vejo a escorregadia
Existência dissipada
Por meus dedos, fugidia,
Procura desencontrada...

Quando em giz ela escrevia
Sua Física ensinada
Traduzida em Poesia,
Foi mão moça amaciada,
Com sua pele macia,
Suave, lisa, suada...

Nesta mão que corrompia
O manejo da jornada,
Dói, não o que a envelhecia,
Mas ser nunca mais mão dada
No bem que já teve um dia
Naquela mão adorada...

sábado, 4 de novembro de 2017

Agressor

Garoeiro – Natal, RN, 4 de novembro de 2017.











Não foste, fique claro, a primeira
A me deixar no grande amor traindo,
Naquele esquema traidor bem-vindo,
Sendo embora, de fato, a derradeira.

A alegada ameaça corriqueira,
Grave risco entre nós subsistindo,
Matou um relacionamento lindo,
Sobre fraudar a relação inteira.

Sempre amável me dei cumprindo a jura,
O tempo todo a enaltecer tua doçura,
Romance sem notícia de perigo.

E a verdade final do meu castigo:
Cansada já de mim, criaste asas,
A acusar o agressor com que me arrasas...

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Futuros perdidos...

Garoeiro – Natal, RN, 03 de novembro de 2017.











Meus anos depois passaram
Sem que acontecendo eu visse
Os projetos lá de antes:
Acasos me encaminharam
Mais aquém que regredisse,
Do que aos aléns adiantes...

Os sonhos todos erraram
Contra o prazo que os predisse
Possíveis e comandantes:
Um a um os massacraram
Em veto que desistisse,
As contradições gritantes...

Tais depois me consolaram
Que em futuro conseguisse
Vê-los já agonizantes:
Mas dos que nos dominaram
Quis todo o tempo seguisse
Seus passados dominantes...

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Doçura do Nirvana

Garoeiro – Natal, RN, 02 de novembro de 2017.













A Razão que desengana
Em minha mente é vezeira
Quando urde em filigrana
A memória e a moleira,
E por sina veterana
Tento sanar a canseira
Em busca da paz que sana.

O que penso aquaplana
No alto mar da alma inteira;
Se é calmo o vento que o espana,
Já nova ideia se esgueira
Conectando essa plana
Com outra plana ladeira,
Suavemente tirana.

Nossa neuronal insana
Irresistível coceira,
Nem dormindo desencana,
Porque a única maneira
De lhe dar uma banana
Com paz, porém, verdadeira,
É a doçura do Nirvana...

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Luzeiro...

Garoeiro – Natal, RN, 01 de novembro de 2017.













Amei-a como a luz do meu destino,
Porém, guardava um coração sombrio;
Ardente e mera queima de pavio,
Nosso amor matinando matutino...

Incêndio àqueles olhos de menino
Às visões claras sempre arredio,
Via sombras da luz ao arrepio,
Sentindo eternamente sol a pino.

À adolescência da paixão humana,
Sob uma claridade que engana,
É verde a advertência amarela.

Por cego vê-la naquela paixão,
Luzia as chamas do meu coração,
Na luz difusa do coração dela...

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Exercício

Garoeiro – Natal, RN, 30 de outubro de 2017.










Cultivo exercício de o céu olhar
Vendo que as nuvens em seu movimento
Consistem em sábio procedimento
Para fazer a alma descansar.

Contemplo as brancas formas a passar
Sobre sereno fundo azul de assento,
Sentindo esvaziar meu pensamento
Para a tensão do corpo aliviar.

E da contemplação aliviada,
Ensina a minha natural lição
De céu, a sensação despreocupada.

De cujo reconforto sossegado,
Aos poucos vêm ninar o coração,
Meus mais felizes sonhos do passado...