domingo, 26 de fevereiro de 2017

Especial de Carnaval - 3º

Arlequinada
Arlequim – Revista Fon-Fon, fevereiro de 1937.



















Colombina!... Ainda reboam nas paredes dos meus ouvidos os sons tonitruantes dos clarins e dos instrumentos esfuziantes do jazz endiabrado...
Há um gosto amargo em minha boca... Tenho bem no fundo de minha retina, dançando, espiralando, serpenteando lubricamente, uma serpentina dourada – irmã do meu sonho fantasista de boêmio...
A cidade, repousa em profunda calma. Nem as buzinas dos autos, nem os silvos histéricos das locomotivas ferem o ar. Parece um Dia de Finados, com o seu luto sepulcral e tedioso. E – não achas que não deixa de ser um sepulcro a quarta-feira de cinzas? – nesse dia tradicional sepultamos os sonhos mais férvidos nascidos abruptamente e instantaneamente agigantados pelo pensamento doentio dos foliões sonhadores.
Ficou, no pedestal do meu sonho alucinante e ambicioso tua imagem como linda estátua de carne e mármore. Tuas mãos – tecelãs de alvos lírios – traçaram no ar a teia de aranha da Felicidade. Emudeceram os clarins de teus lábios, que foram dois arautos incitadores durante a festa aleluial do meu deslumbramento.
Tudo dorme. A tarde é um cinza-poente lutuoso. Chuvisca. São lágrimas que a Natureza verte, pensando na alegria fugace que passou ao alcance de mãos de moço e que – por tímidas e vacilantes – não a souberam tanger em sua fuga provocante e vertiginosa.
A máscara negra de cetim que ornava teu rosto em um escudo frágil, mas tão impenetrável que nem a minha audácia ousou arrancá-la para deslumbrar meus olhos ávidos de paisagens encantadoras.
Ficou morando em mim um arrependimento sinistro, que ri, como o corvo de Poe, satânico, da hesitação fatal que proporcionou tua fuga e o meu consequente delírio, retorcendo os braços como dois polvos de amor famintos de emoção... Mas a eles nada foi dado encontrar senão a fumaça invisível do rastro mentiroso da Felicidade fugidia.
Dois centímetros suspensa a máscara... Um az de copas rubro, feito de rubis húmidos a cerrar tesouros de marfim... depois... a gargalhada sarcástica e emocional da Colombina que zombava do Arlequim tímido...

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Ainda moram nos meus olhos as vertiginosas oscilações de tua cabeça de zíngara feiticeira... Oscilações de pêndulo malvado que disse: “Não! ” e deixou pela primeira vez, - envenenado de saudade e arrependimento – nessa tarde cinzenta de quarta-feira de cinzas, o  teu    Arlequim...

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