sexta-feira, 17 de março de 2017

Dá tu! Dai vós!

Garoeiro – Natal, RN, 17 de março de 2017.













Sinto dó do verbo dar,
Subvertido, arruinado:
Nesta vida de amargar,
Tudo é vendido, alugado,
Ninguém vem reivindicar,
Sob a fé do Deus Mercado,
O direito de doar
O que antes era dado.

De santo oferecimento
Que se gozava na entrega,
Na vigência do momento
O dar é uma troca cega:
Dá-se, contra pagamento,
O que na posse trafega,
E é, de fato, o rendimento,
O interesse que pega.

Ardor mercantil feroz
Causa à antiga abonação
Perversa extinção atroz:
“Quando derdes”, que oração
Assim grafa aquela voz?
Onde as crianças lerão:
“Mais tereis se dardes vós!”
Na extinta conjugação?

Em nosso mundo doente
Há o que se vende ou se aluga;
Nem dar ou ganhar presente,
Da mercante fé tem fuga;
Daí, no uso vigente,
Que as virtudes, subjuga,
Dar virar um verbo ausente
Que já mais ninguém conjuga...

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