domingo, 28 de maio de 2017

Eu amei...

Garoeiro – Natal, RN, 28 de maio de 2017.
[ Para: Soraya... ]









Se muito mais do que devia amasse,
A usufruir leal correspondência,
Jamais renegaria a contingência,
Tampouco as lágrimas que acarretasse.

O Grande Amor mesmo que ultrapasse
Pela grandeza a condescendência,
Acaba sendo o saldo da existência,
Longe do préstimo que o limitasse.

Nunca dando o que dei enquanto amo,
Irei tal mundo dado reclamar,
Porque do bem de amar nada reclamo.

Pois vale, apesar do que chorei,
Com tudo o que me faz desesperar,
Ai de mim, muito mais o que eu te amei...

sábado, 27 de maio de 2017

Por novas palavras-de-ordem...

Garoeiro – Natal, RN, 27 de maio de 2017.











As sombras vindo organizar a gente,
Como não fossem parte desse horror,
Vomitam a salvação dependente
Do nosso inútil poder de eleitor.

E mesquinha e anti-historicamente,
De novo nos conclamam sem pudor,
Que cegos os sigamos novamente,
Creiamos tenha a Pátria um salvador.

Exauridas as políticas miméticas,
Na burla das falácias dialéticas,
Em ruas e praças eis-nos chegados

Para o que der e vier mobilizados.
Mas isso é só o começo da revolta,
Salvadores, não! A Pátria de volta!

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Do destino dos seres...

Garoeiro – Natal, RN, 26 de maio de 2017.











No mundo onde o poder do Nada impera,
Ser só é, lutando para existir,
À negação tentando resistir,
E toda a luta de existência é fera.

Ao que não é revés algum espera,
Pois o não-ser não tem nenhum devir:
Potência cuja essência é destruir,
O exercício de compromisso, zera.

O ser é uma luta em movimento,
Em seu eterno comprometimento
Contra o que dispersa e pelo que une.

Existência no fundo é um só assunto:
Seguindo a gravidade, ficar junto,
Pois desagrega o Nada que nos pune...

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Reino de farsantes

Garoeiro – Natal, RN, 25 de maio de 2017.













Só por bem que mais se queira,
Cheio de plena certeza,
Sabe a alma verdadeira
A desejável franqueza,
Pois a farsa rotineira,
Campeã da sutileza,
Convence sobremaneira,
Que apagado é chama acesa.

Seja a mão tateadeira,
O olhar com sua crueza,
O nariz que tão bem cheira,
Ou áudio de boca ilesa,
Nada impede a forasteira,
Disfarçada de princesa
Em seu hábito de freira,
Seduzir toda a nobreza.

Que daí só se endinheira,
Governando a safadeza,
Espalhando a roubalheira,
Em criminosa proeza.
Mas a histórica beleza
Virá da verdade inteira,
Fazendo toda a vileza
Da impostura, passageira...

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Liberados

Garoeiro – Natal, RN, 24 de maio de 2017.











O carnaval do nosso amor na cama
Era o baile febril das fantasias,
Em que ousadas demais pornografias
Iam bailando a excitação da trama.

Se um bailasse em devasso panorama
Abrindo as suas mais sujas ousadias,
O outro ia que o bom dessas orgias
Era fazer que mais ardesse a chama.

Em vez de amor de esposas com maridos,
Amávamos com gozos pervertidos
Num torneio feliz de perversão.

E o amor que a gente nunca achava feio,
Buscava no tesão que solta freio,
O prazer preso na liberação.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Passatempo na praia...

Garoeiro – Natal, RN, 23 de maio de 2017.













Claro sol queimando imenso,
Mas nada que me atraia,
Enquanto arde o que penso,
Caminhando pela praia...

O passado a que pertenço
Dá que o presente me caia
Sendo totalmente infenso
Ao desejo marambaia.

Ardendo no transe denso,
O gosto da vida ensaia
Prenúncio de anseio imenso
Num futuro de outra laia...

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Desenredo

Garoeiro – Natal, RN, 22 de maio de 2017.













Nada sei senão conceito,
Mas não consigo explicar
Quando na rede me deito,
O prazer de aqui deitar.

Não é meu corpo que ajeito
Com seu peso a descansar,
Talvez alma cujo leito
Preferido vai gozar.

A paz que domina o peito
Sai me fazendo sonhar,
E eu sinto um gosto perfeito
Que não sei conceituar.

E esse não saber direito,
Sabe o clima dominar:
Vem-me um sono rarefeito,
Insuspeito de enredar...

domingo, 21 de maio de 2017

Música

Garoeiro – Natal, RN, 21 de maio de 2017.













Saem do silêncio, soluçantes,
Sopros suaves, sedutores,
Que os ouve feito sons tocantes,
A alma dos compositores.

E os quer, plangendo a paz de antes,
Sob guizos afinadores,
Fazendo os silentes soantes,
Dissonarem-se em sons cantores... 

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Sinto vergonha de mim - Textos de: Cleide Canton e Ruy Barbosa - Com: Rolando Boldrin - 02.07.2007

Solipsista

Garoeiro – Natal, RN, 19 de maio de 2017.













Por querer amar me dando
Não pedi colher de chá
A ninguém que fui amando
Que amor bom é amor que dá.

Tanto gosto, então gozando,
Vale agora vida má:
De amor dado o retornando,
É bem pouco e olhe lá...

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Donde vêm as virtudes

Garoeiro – Natal, RN, 18 de maio de 2017.
[ Para o Amigo Gilberto, no seu aniversário! ]













Nossa mais linda aventura
É o milagre de nascer,
Tendo ali uma vida pura,
Inteirinha por viver.

Na berçosa gostosura
Começa-se a acontecer,
E a existência se inaugura
Na essência do prazer.

Mas tal êxtase só dura
Até o Tempo nos fazer
A racional criatura
Convidada a compreender.

A que o mundo captura
Na engrenagem de moer,
Que vai girando a impostura
Da obrigação de vencer.

O escravo da conjuntura
É feito o que tem que ser;
O deleite da doçura,
Obrigado a esquecer.

E a ventura nascitura,
Que ele nunca mais vai ter,
Fundamenta essa procura
Dos sonhos de bem-querer...

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Abismos da Razão

Garoeiro – Natal, RN, 17 de maio de 2017.













Quando tinha só um ano
Tive a mais doce ternura
E o afeto soberano,
Ao sentir a deliciura
De banho e troca de pano,
O conforto da candura
No materno amor ufano
Em mãos cheias de brandura.

Que ao gozo de tal glória
Nenhuma comparação
Possa achar na longa história,
É minha convicção;
Mas só vem na compulsória,
Que a divina iniciação
Foi cair-me da memória
Nos abismos da Razão...

terça-feira, 16 de maio de 2017

Preparação de festa

Garoeiro – Natal, RN, 16 de maio de 2017.












Para a mais linda festa já faz planos,
Alegre, meu menino coração,
Pois fará, breve, minha mãe cem anos,
Em centenária comemoração!

Meu presente de sonhos veteranos,
Na caixinha forrada de emoção,
Preparo com desvelos marianos,
Envolto em poesia feita a mão.

Ela até anda meio preocupada
Com tal degrau de sua longa escada,
Apreensiva ante uma data desta.

Mas há de achar melhor convencimento,
A merecer contar na vida um cento,
E por ousar viver, ousada festa!

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Status

Garoeiro – Natal, RN, 15 de maio de 2017.















- Com os bens que a gente tem,
E posição social,
Os laços que nos mantêm
Vêm da imagem do casal,
E felicidade é um bem
Corriqueiro, natural...

(Só convenhamos, porém,
Que em essência esse casal
Vive a moda que convém:
Faz-nos parecer legal
O vazio nhenhenhém
Do amor ornamental ...)

domingo, 14 de maio de 2017

Até tu, Brutus?

Garoeiro – Natal, RN, 14 de maio de 2017.

















Jamais um poder tirano,
No mar da História venceu;
Nunca houve pior dano
Na ética do Liceu,
Do que quem delata mano
Tentando livrar o seu:
Só o eterno desengano,
O mais desprezível breu,
Farão o cotidiano
Que o Traidor mereceu.
Mire-se, pois, Italiano,
Em Vaccari e Zé Dirceu...

sábado, 13 de maio de 2017

Siri

Garoeiro – Natal, RN, 13 de maio de 2017.













Caminho, hoje, alegre e cordial,
Só, pela praia, mar de areia e sol,
Olhando as ondas em seu festival,
O corpo entregue ao capitoso prol.

Meu lábio adoça a brisa com seu sal,
É a imagem das espumas meu farol;
Se agora eu me acabasse sem sinal,
Da vida partiria em sumo escol.

A beira-mar é o lugar mais claro
Para a gente se inundar de existência,
Num sentimento pessoal tão raro.

Todo o prazer na minha consciência
Deixa em meus passos sensação que ensaia
Ser eu somente mais um ser da praia...

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Meninando...

Garoeiro – Natal, RN, 12 de maio de 2017.













Do piado do anu preto
Me menino e me remeto
À memória no terceto...

Os sonhos todos em branco
Fluíam sem solavanco
Na escalada do barranco...

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Amálgama

Garoeiro – Natal, RN, 11 de maio de 2017.













Resultado de histórica opressão
Por nós contra o universo feminino,
É essa semovente aceitação
A resumir, hoje, de amor o ensino.

Cuidando em não se dar, a introjeção
Dispõe para dois egos um destino
Duma aparente neutra relação,
Em socialmente neutro figurino.

Por ser tal ficção tão atraente,
A vida dos casais fará contente,
Embora vivam sempre mal-amados.

Ousar amar, porém, é na essência
Em dois um repartir-se em transcendência,
Sendo espiritualmente amalgamados.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

O amor que fica nas canções

Garoeiro – Natal, RN, 10 de maio de 2017.












Policromia de suaves tintas
Sobre um riscado ardente de paixões,
E o contraste de cores tão distintas,
Nosso amor era feito de canções.

Renego, agora, as emoções extintas,
Comuns à morte das separações,
Cantando solo em solidões famintas,
As músicas dos nossos corações.

Lembrando sinto um pouco de alegria
Na tristeza da minha cantoria,
Mas cantando já não me desespero.

Eu não sei por que outro tu me esqueces,
Quando em mim canta a dor que bem conheces:
Ah, se soubesses o bem que eu te quero!

terça-feira, 9 de maio de 2017

Do Grande Deus e sua Deusa...

Garoeiro – Natal, RN 9 de maio de 2017.












Ao dispor dos processos radiativos,
Contra operados em suma frequência,
Em todo o imenso Cosmos, sem clemência,
Dizima o Nada os grãos corporativos.

No grão, porém, em que estamos cativos,
Para exercer a louca competência,
O Nada, duplicando sua essência,
Dispõe da Morte para os seres vivos.

Lá longe é o Grande Deus quem tudo encerra,
A Deusa acaba a Vida aqui na Terra,
A triste Lei em que existir se assenta.

No entanto ao resistirmos, vivos seres,
Vivemos contra o Nada e seus poderes,
Dos mortos de que a Vida se alimenta...  

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Garoeira cosmovisão

Garoeiro – Natal, RN 8 de maio de 2017.










Em todo o longe universo aberto
Domina o auge da radiação;
Somente aqui de nossa Terra perto,
Há predomínio da moderação.

Na imensidão ao se sentir liberto,
O Nada opera a destruição:
Com fúria ataca o condensado incerto,
Se opondo à força da gravitação.

Cega visão alheia ao extermínio,
Procura nesse aterrador domínio,
Onde ancorar sua enganada fé.

Em vez de amar e preservar a Terra,
Vendo no palco do universo em guerra,
Quão poderoso deus que o Nada é.

domingo, 7 de maio de 2017

A grande obra nacional da Globo...

Garoeiro – Natal, RN, 7 de maio de 2017.
[ Para: Mateus, vítima, sobrevivente... ]










Conter já não dá mais esse extravaso
Que ao mito cordial deu xeque-mate:
Tememos o pior no curto prazo,
Que em discussão de rua alguém nos mate.

Tudo o que mal se fez contra o atraso,
Sem riscos ao motor do disparate,
Já é culpa forçada a dar azo
Às turvas legiões em seu combate.

Modernizar a exploração robusta
Sem afrouxar a injusta lei do rito,
E impor como valor a lei injusta,

Faz o medo virar força de atrito.
Pela aparência é o ódio que assusta,
Mas o fascismo é o cerne do conflito.