quarta-feira, 22 de março de 2017

A cura

Garoeiro – Natal, RN, 22 de março de 2017.












Meu segredo de amor na relação,
Depois do mais do que perder a calma,
Era ir buscar remédio na paixão,
Deixando a cama nos curar do trauma
Pela fé nos milagres do colchão,
Naqueles beijos bons de corpo e alma...

terça-feira, 21 de março de 2017

Bela adormecida

Garoeiro – Natal, RN, 21 de março de 2017.









Amar-te o corpo, essa glória,
Minha caça preferida,
É a convicção notória
Da tua entrega traída.

E se mudo a trajetória
Preferindo uma investida
Na tua alma simplória,
Nada de amor na saída.

Teu amor é outra história,
Que jamais é conferida
Nessa busca exploratória
Em que te encontro perdida.

Se o escondes na memória,
A salvo de tua vida,
Meu amor só vê vitória
Despertando a adormecida...

segunda-feira, 20 de março de 2017

Fim de golpe

Garoeiro – Natal, RN, 20 de março de 2017.























Combateu-nos tão enfático
Desdenhando do decoro,
Desde o covil sorumbático
No fascistóide namoro,
E acabar nesse erro fático
Sem sequer direito a choro,
A ouvir no momento drástico,
Do Bloco Histórico, o coro:
- O teu jeito é antipático!
- Teu discurso, um desaforo!
- Teu poder um lance tático,
No jogo de Sérgio Moro...

domingo, 19 de março de 2017

POR QUE NÃO VEIO O ESQUECIMENTO


(Canindé-CE, 21/05/1905 — Rio-RJ, 06/08/1987)













Tudo na vida passa:
a inquietude, a esperança, o desalento,
a dor de recordar um funesto momento
que, no nosso destino, amargas sombras traça...

Tudo, no mundo, a gente esquece:
o ódio que alguém nos inspirou,
a melancolia de um pôr-do-sol,
a ternura mansa de uma prece,
a própria angústia que parece,
às vezes, não ter fim...

A vida é feita assim:
de doces resignações, de esquecimentos,
de renúncias, de sofrimentos
cicatrizados pelo tempo...

Não sei porque não a esqueci
em tantos anos de separação!
Meu tranquilo coração
ainda pensa em você,
ainda a espera, ainda a vê
na saudade e no enlevo do passado...
Minha suave esperança inatingida,
você é a minha vida
e a vida não se esquece...

sábado, 18 de março de 2017

Minha poesia

Garoeiro – Natal, RN, 18 de março de 2017.











No que essencialmente são
Estas notas orquestradas,
Inseridas onde estão,
Do futuro imigradas,
Cantando música em vão,
Vetada das ministradas
Nas récitas de plantão,
Fora a pauta das estradas,
Nenhuma chance terão,
Nem verão, jamais, menção,
Nos róis das vacas sagradas...

sexta-feira, 17 de março de 2017

Dá tu! Dai vós!

Garoeiro – Natal, RN, 17 de março de 2017.













Sinto dó do verbo dar,
Subvertido, arruinado:
Nesta vida de amargar,
Tudo é vendido, alugado,
Ninguém vem reivindicar,
Sob a fé do Deus Mercado,
O direito de doar
O que antes era dado.

De santo oferecimento
Que se gozava na entrega,
Na vigência do momento
O dar é uma troca cega:
Dá-se, contra pagamento,
O que na posse trafega,
E é, de fato, o rendimento,
O interesse que pega.

Ardor mercantil feroz
Causa à antiga abonação
Perversa extinção atroz:
“Quando derdes”, que oração
Assim grafa aquela voz?
Onde as crianças lerão:
“Mais tereis se dardes vós!”
Na extinta conjugação?

Em nosso mundo doente
Há o que se vende ou se aluga;
Nem dar ou ganhar presente,
Da mercante fé tem fuga;
Daí, no uso vigente,
Que as virtudes, subjuga,
Dar virar um verbo ausente
Que já mais ninguém conjuga...

quinta-feira, 16 de março de 2017

Explicação da crise...

Garoeiro – Natal, RN, 16 de março de 2017.
















As dominantes são três,
Nas bastantes propriedades
Do espírito burguês:
Primeiro, em comodidades,
Provimentos sem cachês;
Segundo, por novidades,
Viver a moda da vez,
E em superficialidades,
A mesquinha pequenez.
Por dessas três entidades
Ser fanático freguês,
Vai gozar saciedades,
Espalhando a escassez...

quarta-feira, 15 de março de 2017

Amor resiste

Garoeiro – Natal, RN, 15 de março de 2017.













Mais sonha sobretudo Amor vencer
O efêmero que castiga a excelência,
Nos prolongando ao longo da existência
Os dias amorosos do prazer.

Raridade de desaparecer
No reino dominante da aparência,
Amor resiste ardendo sua essência
Dentro do anseio de permanecer.

Faz crer que o Grande Amor acaba cedo,
O moderno mercante desenredo,
Mostrando-o antigo e banal.

Que amor de vida inteira em juramento,
Vai sendo o derradeiro impedimento
À busca de escravo em tempo integral...

terça-feira, 14 de março de 2017

A vida é trágica...

Garoeiro – Natal, RN, 14 de março de 2017.












A muito poucos, a piscar, enseja
Amor, vê-lo no escuro do egoísmo,
Nosso pago interior onde viceja
A flor que nos condena ao próprio abismo.

Por ser o bem maior que se deseja,
Vai ocultá-lo a fé do ilusionismo,
Em mil versões a que ninguém o veja,
Num mundo só de amor por conformismo.

Depois das fantasias mais cruéis,
Poucos videntes seguirão fiéis
A tal destino precioso e claro.

E a Amor achando, ter-se-ão perdidos,
Pois lhes impõe esse sucesso raro,
Viver de amores não correspondidos!

segunda-feira, 13 de março de 2017

Cadeirante

Garoeiro – Natal, RN, 13 de março de 2017.















- De cadeirantes, as dores,
Padecem de ressentida
Peleja contra os valores
Em que são gente excluída,
No chão dos planejadores -,
Disse, à dupla conhecida.

Meus dois interlocutores
Divergiram de saída:
- Num Reino de Benfeitores
A queixa será acolhida!
- Não é culpa de gestores,
Deficiência imerecida...

- Tais juízos, meus senhores,
No mundo só têm guarida
Em atrasados setores,
Feita essa causa perdida,
Por vós, discriminadores,
Cadeirante, a minha vida!

domingo, 12 de março de 2017

Na boca amarga da multidão...

Garoeiro – Natal, RN, 12 de março de 2017.









De tudo, o amor fiel à liderança,
Controvertido em seu tecido imenso,
Vive do fruto que na História alcança
Anunciado verdadeiro ascenso.

Razão porque funda desesperança
Vem desmobilizar o avanço denso,
Traído pela maldita aliança
Que bota o inimigo no consenso.

De tanto ver aprontarem as suas,
Militante cansou de ser calouro,
E tantos já não querem ir às ruas.

Minando o movimento vindouro,
Fica a decepção das tramas nuas,
Por ver que Direção não deu no couro...

sábado, 11 de março de 2017

No sarau...

Garoeiro – Natal, RN, 11 de março de 2017.

















Dum esperado fascínio,
E vendo que me constranjo
Ante extremo predomínio
De estudo no seu arranjo,
Explica o músico exímio:
- “É lira que só eu tanjo! ”

Assenti, por mero avenço,
Mas se o coração falasse
Tocaria em contrassenso,
De gostar que ele tocasse
Levinho, em vez de denso,
E que qualquer um gostasse...

sexta-feira, 10 de março de 2017

Apequenados...

Garoeiro – Natal, RN, 10 de março de 2017.












Homem, macho de batismo,
De amada, agora, sozinho,
Dói-me a alma quando cismo
Ante esse pobre homenzinho
Que, obra do feminismo,
Tenho para meu vizinho.

A feminista senhora,
Arquipélago sem ilha,
Verte o poder que vigora
E inundou a família
Dessa pressa sem demora
Duma eficiente matilha.

Na falsa fala serena,
Nossa pós-fêmea gestora,
Sempre impôs a paz na arena,
Não, por esclarecedora:
Porque a todos apequena
Seu amor de fiadora.

O outro polo, seu marido,
No feminista contexto,
Foi sendo diminuído
- Papaizinho, a pretexto -,
Até se ver convertido
Ao dominante cabresto.

Se viver sendo humilhado
É de inferno estar refém
Com o ideal sufocado,
O apequenado, porém,
Pelo Tempo questionado,
Nega tudo e diz amém...

quinta-feira, 9 de março de 2017

Solfejo

Garoeiro – Natal, RN, 9 de março de 2017.












Tal má pausa de tercina,
Curto, brevíssimo corte,
Mas, que um fim indetermina,
Assim será minha morte.

Pois é a regência que afina,
E traz de longe o suporte:
A canção que me arruína,
Prolongará minha sorte...

quarta-feira, 8 de março de 2017

Preparação de julgamento justo...

Garoeiro – Natal, RN, 08 de março de 2017.










A Corte que nos frequenta
Jurando à Lei ser fiel,
Dá vendada por isenta,
Fôra sagrado troféu,
A Deusa que nada tenta,
Nada mancha seu papel.

Só que a imagem apresenta
O Juiz lembrando ao réu,
- Antes da data da ementa! –
O jogo de passa-anel,
Que ao escolhido contenta,
E apaga o fogaréu.

Nem bandido mais aguenta
A concorrência cruel
Que a Magistratura ostenta,
E até esgoto de bordel
Julga causa fedorenta
Ver Gilmar julgar Michel...

terça-feira, 7 de março de 2017

Lula & Dilma...

Garoeiro – Natal, RN, 7 de março de 2017.











No Brasil que a Globo anoita,
Nada é, tudo parece,
A navegação apoita
No que a versão transparece,
Dando à malta que acoita,
A criminosa benesse
De filtrar o que abiscoita
No que a edição esquece,
Enquanto a miséria açoita
A audiência que padece,
E a Resistência pernoita
No chão que mais lhe apetece:
A Revolução, na moita,
À espera do que acontece...